# 1.4
Vagueamos de bicicleta pela tarde dentro. A tez morena dos teus tornozelos conduz desenfreadamente o meu pensamento através da periferia verde, onde é possível estender um beijo ou uma manta de piquenique. Embeveço-me no discurso mecanizado e absorvente das pernas, esses pedais loucos desmembrando o dínamo do tempo. De cada vez que, secretamente, lho peço, a saia carmim esvoaça e liberta a taquicardia incandescente que lhe subjaz, as coxas provocantes, o seu minério perfumado. Ávido, irmano-me na querença dos fazedores epopeicos dos Descobrimentos: o caminho marítimo para ti intriga-me, faz-me falta. Preciso de, pelo menos, um atalho fluvial. Trepo à gávea para avistar imprevistos, conquistar alvíssaras.
Em redor, as árvores de copa tartamuda esbracejam e inquietam-se à nossa passagem; são donas de casa intrigadas com o desfecho do episódio da telenovela que se desenrola diante da sua seiva. Estás cansada. Adivinho que, a cada palmo vencido, te entregas à angústia do caminho de volta. Sempre se me afigurou estranha essa grilheta, a de cogitar arduamente sobre o regresso aquando da ida, mas acredito ter em mim um presente, um agora, tão sólido que porventura te prenderás a ele e poderás largar, enfim, essas fatídicas âncoras, as que te arrastam na corrente de um futuro que nunca chegará a existir. O futuro é uma projecção. A pedra que se arremessa mas não se consegue ver onde cai.
— Onde estamos?
Completámos um ciclo. Vou explicar-to:
— Toda esta extensão de vinha por onde acabámos de passar pertencia ao meu avô. Até àquele monte lá ao fundo. Costumava vir para aqui com ele muitas vezes, sobretudo nas férias grandes.
— Já te estou a imaginar, de calções, de ceroulas, com ranho no nariz e os joelhos esfolados a passarinhar entre as videiras…
— Qualquer coisa assim. Brinquei muito nestes campos, a remexer na terra e no calcário, a coleccionar gafanhotos e grilos, a comer bical e dona branca durante os dias melosos de vindimas…
— Dona branca? A banqueira do povo? Não era velha de mais para ti?
— É uma casta de uvas brancas: bago pequeno, dourado, doce. Costumava agarrar os cachos e abocanhá-los, sofregamente, a boca cheia até mais-não-poder, o sumo a escorrer pelo queixo…
— Ora aí está mais uma imagem interessante. Tens fotografias?
A tua ironia. Palpável e comestível. Como um bago de uva que rebenta entre os incisivos. A tua ironia. Amo a janela aberta que manipulas com as palavras. A tua maior força e destreza aos dezassete anos. Nunca me canso, mesmo quando me roubas o fôlego num lapso de abismo. Pelo contrário, às vezes invisto-me na previsão do próximo sarcasmo; outras quantas experimento lançar pistas ao teu encontro, como que obstáculos de corta-mato, e detenho-me e entretenho-me a deliciar-me com aqueles a que concedes o luxo de um choque frontal e aqueloutros de que austeramente te desvias. Habilmente. Por vezes.
— Chega-te mais para a direita; aí pões-me em contraluz.
— Não faz mal. Eu gosto de brilhar nas fotografias…
— Parva! Deixa-te de brincadeiras e vai para ali, mais perto da árvore. Vá lá, quero apanhar-te com a figueira velha em segundo plano.
— Queres… E chamas-me um figo?
— Melhor ainda: como-te!
Fotografados. Estamos pelo chão, caídos na teia, eu em pernas de aranha, tu apoiada nos meus joelhos, amiudadas vezes desenhando com um braço a aproximação aos figos no rés-do-chão da folhagem que nos entrecorta o céu. A cisma não tem escalas possíveis — a terra é nossa. Toda nossa. Ergues-te sobre a voz e lanças-te sobre mim. Um abraço telúrico arruma os teus seios contra a minha ideia de casa. Há firmeza nos olhos fechados. Os pássaros rasgam o vento para acompanhar o timbre sibilino do teu cantar orgástico. Não confeccionas ironia agora — és denotativa e literal como uma gota de saliva. É apenas uma tarde que nos acrescenta às outras tardes de penugem eriçada, o sempiterno nervoso miudinho na órbita dos planetas novos quando lhes acontece invadirem uma nova galáxia. Um grama de pó-de-ser que nos verga ante o seu peso astronómico. Não vale a pena dizer nada. A sério que não.
Eu digo.
— Amo-te.
Deténs-te, absorta. Cravada no infinito. Angustio-me infinitamente a pensar se sou eu, o infinito.
— Dizes isso a qualquer gaja que te abra as pernas à sombra de uma figueira, algures no cu do judas.
— É verdade que sim, tens razão.
— Estúpido!
Na minha palma revolve-se a espuma do teu cabelo. Cresce um tumulto de sede dentro do silêncio. Ainda tremo. Acendo-te um cigarro king size com baixo teor de confidências e concentrado de nicotina.
— E eu a ti.
…
Apeados, impelimos as bicicletas com uma mão, na outra entrecruzam-se os dedos e as possibilidades. A combustão de um segundo pode bastar para que seja tudo dito. Ou silenciado. Ardemos.
Cruzamos a passarela da aldeia, inauguramos o mundo. As velhas observam-nos. As putas das velhas. Perscrutam-nos. Atravessam-nos. Assaltam-nos. O gume da sua invasão radiográfico racha-nos de transparência. Somos uma fractura exposta de pudor e felicidade. Avançamos lentamente, em passo acelerado. Passo por elas sozinho — abstraio-me, esqueço-me de ti e da tua mão culpadamente suada. Finjo ignorar a sua sapiência indiscreta. As putas das velhas. Elas sabem. Eu sei que elas sabem. Eu sei que tu sabes. E finges também. É bem feito serem velhas, para aprenderem a não se meterem onde não são chamadas. É bem feito estarem às portas da morte, que só servem para sugar a vida dos outros. Pobres velhas. Se elas soubessem… Será que sabem? Será que se nota?
— Boa tarde, como está.
(Disfarço a interrogação, para não acordar a resposta nem o estorno da questão.) O campanário sacode o sino energicamente. Apetecia-me rebolar contigo pelo tapete de pétalas e folhas que maquilha o piche do escaparate e cobrir-te com uma procissão de beijos e heresias até ao santuário. Porque as putas das velhas sabem. Vê-se-lhes na cara que sabem. Estiveram aqui para isso, para saber, à espera desde que nos viram sair montados nas bicicletas. Elas sentem, pressentem. Têm uma sinistra acuidade divinatória enredada nos seus lutos subcutâneos. São bruxas perspicazes e perseverantes. Caminha depressa, por favor.
— Ainda falta muito?
— É já ali na próxima à direita. Podes ir retocando a maquilhagem e dando um jeito ao cabelo.
Inquietei-te mais ainda.
— Não está bem o meu cabelo?
As putas das velhas miram o teu cabelo lá do alto da sua imaculada inutilidade provecta. Dizem que está mal, desgrenhado.
— Esquece, está bem assim. Estava a brincar.
…
Temos pela frente um portão que nos fecha. Momentaneamente? Duvido das minhas próprias certezas. Não houve ainda tempo para o rescaldo. Vamos abrir timidamente o portão e entrar. Não temos pressa. A minha família sabe o teu nome. Eu já conheço de cor o odor exalado pelo percurso dos teus seios na minha boca. Ainda tenho o teu sopro cálido a engarupar-se no meu pescoço. E um comboio a vapor a percorrer a pele. Acidamente. Em surdina. Apresento-te a minha avó. Prova o folar. Estes são os meus tios-avós, aqueles de quem te falei, que estiveram na América quarenta anos e agora voltaram às “origens” (porque ser estranho numa terra estranha é algo em que nos viciamos facilmente). Contei-lhes que nestas férias foste a Nova Iorque e a Filadélfia — assim sempre teremos assunto de passatempo. És um quebra-cabeças. Vamos beijar o Cristo e fazer de conta que pecámos muito. Aleluia, aleluia! Que bom.
Em redor, as árvores de copa tartamuda esbracejam e inquietam-se à nossa passagem; são donas de casa intrigadas com o desfecho do episódio da telenovela que se desenrola diante da sua seiva. Estás cansada. Adivinho que, a cada palmo vencido, te entregas à angústia do caminho de volta. Sempre se me afigurou estranha essa grilheta, a de cogitar arduamente sobre o regresso aquando da ida, mas acredito ter em mim um presente, um agora, tão sólido que porventura te prenderás a ele e poderás largar, enfim, essas fatídicas âncoras, as que te arrastam na corrente de um futuro que nunca chegará a existir. O futuro é uma projecção. A pedra que se arremessa mas não se consegue ver onde cai.
— Onde estamos?
Completámos um ciclo. Vou explicar-to:
— Toda esta extensão de vinha por onde acabámos de passar pertencia ao meu avô. Até àquele monte lá ao fundo. Costumava vir para aqui com ele muitas vezes, sobretudo nas férias grandes.
— Já te estou a imaginar, de calções, de ceroulas, com ranho no nariz e os joelhos esfolados a passarinhar entre as videiras…
— Qualquer coisa assim. Brinquei muito nestes campos, a remexer na terra e no calcário, a coleccionar gafanhotos e grilos, a comer bical e dona branca durante os dias melosos de vindimas…
— Dona branca? A banqueira do povo? Não era velha de mais para ti?
— É uma casta de uvas brancas: bago pequeno, dourado, doce. Costumava agarrar os cachos e abocanhá-los, sofregamente, a boca cheia até mais-não-poder, o sumo a escorrer pelo queixo…
— Ora aí está mais uma imagem interessante. Tens fotografias?
A tua ironia. Palpável e comestível. Como um bago de uva que rebenta entre os incisivos. A tua ironia. Amo a janela aberta que manipulas com as palavras. A tua maior força e destreza aos dezassete anos. Nunca me canso, mesmo quando me roubas o fôlego num lapso de abismo. Pelo contrário, às vezes invisto-me na previsão do próximo sarcasmo; outras quantas experimento lançar pistas ao teu encontro, como que obstáculos de corta-mato, e detenho-me e entretenho-me a deliciar-me com aqueles a que concedes o luxo de um choque frontal e aqueloutros de que austeramente te desvias. Habilmente. Por vezes.
— Chega-te mais para a direita; aí pões-me em contraluz.
— Não faz mal. Eu gosto de brilhar nas fotografias…
— Parva! Deixa-te de brincadeiras e vai para ali, mais perto da árvore. Vá lá, quero apanhar-te com a figueira velha em segundo plano.
— Queres… E chamas-me um figo?
— Melhor ainda: como-te!
Fotografados. Estamos pelo chão, caídos na teia, eu em pernas de aranha, tu apoiada nos meus joelhos, amiudadas vezes desenhando com um braço a aproximação aos figos no rés-do-chão da folhagem que nos entrecorta o céu. A cisma não tem escalas possíveis — a terra é nossa. Toda nossa. Ergues-te sobre a voz e lanças-te sobre mim. Um abraço telúrico arruma os teus seios contra a minha ideia de casa. Há firmeza nos olhos fechados. Os pássaros rasgam o vento para acompanhar o timbre sibilino do teu cantar orgástico. Não confeccionas ironia agora — és denotativa e literal como uma gota de saliva. É apenas uma tarde que nos acrescenta às outras tardes de penugem eriçada, o sempiterno nervoso miudinho na órbita dos planetas novos quando lhes acontece invadirem uma nova galáxia. Um grama de pó-de-ser que nos verga ante o seu peso astronómico. Não vale a pena dizer nada. A sério que não.
Eu digo.
— Amo-te.
Deténs-te, absorta. Cravada no infinito. Angustio-me infinitamente a pensar se sou eu, o infinito.
— Dizes isso a qualquer gaja que te abra as pernas à sombra de uma figueira, algures no cu do judas.
— É verdade que sim, tens razão.
— Estúpido!
Na minha palma revolve-se a espuma do teu cabelo. Cresce um tumulto de sede dentro do silêncio. Ainda tremo. Acendo-te um cigarro king size com baixo teor de confidências e concentrado de nicotina.
— E eu a ti.
…
Apeados, impelimos as bicicletas com uma mão, na outra entrecruzam-se os dedos e as possibilidades. A combustão de um segundo pode bastar para que seja tudo dito. Ou silenciado. Ardemos.
Cruzamos a passarela da aldeia, inauguramos o mundo. As velhas observam-nos. As putas das velhas. Perscrutam-nos. Atravessam-nos. Assaltam-nos. O gume da sua invasão radiográfico racha-nos de transparência. Somos uma fractura exposta de pudor e felicidade. Avançamos lentamente, em passo acelerado. Passo por elas sozinho — abstraio-me, esqueço-me de ti e da tua mão culpadamente suada. Finjo ignorar a sua sapiência indiscreta. As putas das velhas. Elas sabem. Eu sei que elas sabem. Eu sei que tu sabes. E finges também. É bem feito serem velhas, para aprenderem a não se meterem onde não são chamadas. É bem feito estarem às portas da morte, que só servem para sugar a vida dos outros. Pobres velhas. Se elas soubessem… Será que sabem? Será que se nota?
— Boa tarde, como está.
(Disfarço a interrogação, para não acordar a resposta nem o estorno da questão.) O campanário sacode o sino energicamente. Apetecia-me rebolar contigo pelo tapete de pétalas e folhas que maquilha o piche do escaparate e cobrir-te com uma procissão de beijos e heresias até ao santuário. Porque as putas das velhas sabem. Vê-se-lhes na cara que sabem. Estiveram aqui para isso, para saber, à espera desde que nos viram sair montados nas bicicletas. Elas sentem, pressentem. Têm uma sinistra acuidade divinatória enredada nos seus lutos subcutâneos. São bruxas perspicazes e perseverantes. Caminha depressa, por favor.
— Ainda falta muito?
— É já ali na próxima à direita. Podes ir retocando a maquilhagem e dando um jeito ao cabelo.
Inquietei-te mais ainda.
— Não está bem o meu cabelo?
As putas das velhas miram o teu cabelo lá do alto da sua imaculada inutilidade provecta. Dizem que está mal, desgrenhado.
— Esquece, está bem assim. Estava a brincar.
…
Temos pela frente um portão que nos fecha. Momentaneamente? Duvido das minhas próprias certezas. Não houve ainda tempo para o rescaldo. Vamos abrir timidamente o portão e entrar. Não temos pressa. A minha família sabe o teu nome. Eu já conheço de cor o odor exalado pelo percurso dos teus seios na minha boca. Ainda tenho o teu sopro cálido a engarupar-se no meu pescoço. E um comboio a vapor a percorrer a pele. Acidamente. Em surdina. Apresento-te a minha avó. Prova o folar. Estes são os meus tios-avós, aqueles de quem te falei, que estiveram na América quarenta anos e agora voltaram às “origens” (porque ser estranho numa terra estranha é algo em que nos viciamos facilmente). Contei-lhes que nestas férias foste a Nova Iorque e a Filadélfia — assim sempre teremos assunto de passatempo. És um quebra-cabeças. Vamos beijar o Cristo e fazer de conta que pecámos muito. Aleluia, aleluia! Que bom.
