15 Novembro, 2006

# 1.4

Vagueamos de bicicleta pela tarde dentro. A tez morena dos teus tornozelos conduz desenfreadamente o meu pensamento através da periferia verde, onde é possível estender um beijo ou uma manta de piquenique. Embeveço-me no discurso mecanizado e absorvente das pernas, esses pedais loucos desmembrando o dínamo do tempo. De cada vez que, secretamente, lho peço, a saia carmim esvoaça e liberta a taquicardia incandescente que lhe subjaz, as coxas provocantes, o seu minério perfumado. Ávido, irmano-me na querença dos fazedores epopeicos dos Descobrimentos: o caminho marítimo para ti intriga-me, faz-me falta. Preciso de, pelo menos, um atalho fluvial. Trepo à gávea para avistar imprevistos, conquistar alvíssaras.
Em redor, as árvores de copa tartamuda esbracejam e inquietam-se à nossa passagem; são donas de casa intrigadas com o desfecho do episódio da telenovela que se desenrola diante da sua seiva. Estás cansada. Adivinho que, a cada palmo vencido, te entregas à angústia do caminho de volta. Sempre se me afigurou estranha essa grilheta, a de cogitar arduamente sobre o regresso aquando da ida, mas acredito ter em mim um presente, um agora, tão sólido que porventura te prenderás a ele e poderás largar, enfim, essas fatídicas âncoras, as que te arrastam na corrente de um futuro que nunca chegará a existir. O futuro é uma projecção. A pedra que se arremessa mas não se consegue ver onde cai.
— Onde estamos?
Completámos um ciclo. Vou explicar-to:
— Toda esta extensão de vinha por onde acabámos de passar pertencia ao meu avô. Até àquele monte lá ao fundo. Costumava vir para aqui com ele muitas vezes, sobretudo nas férias grandes.
— Já te estou a imaginar, de calções, de ceroulas, com ranho no nariz e os joelhos esfolados a passarinhar entre as videiras…
— Qualquer coisa assim. Brinquei muito nestes campos, a remexer na terra e no calcário, a coleccionar gafanhotos e grilos, a comer bical e dona branca durante os dias melosos de vindimas…
— Dona branca? A banqueira do povo? Não era velha de mais para ti?
— É uma casta de uvas brancas: bago pequeno, dourado, doce. Costumava agarrar os cachos e abocanhá-los, sofregamente, a boca cheia até mais-não-poder, o sumo a escorrer pelo queixo…
— Ora aí está mais uma imagem interessante. Tens fotografias?
A tua ironia. Palpável e comestível. Como um bago de uva que rebenta entre os incisivos. A tua ironia. Amo a janela aberta que manipulas com as palavras. A tua maior força e destreza aos dezassete anos. Nunca me canso, mesmo quando me roubas o fôlego num lapso de abismo. Pelo contrário, às vezes invisto-me na previsão do próximo sarcasmo; outras quantas experimento lançar pistas ao teu encontro, como que obstáculos de corta-mato, e detenho-me e entretenho-me a deliciar-me com aqueles a que concedes o luxo de um choque frontal e aqueloutros de que austeramente te desvias. Habilmente. Por vezes.
— Chega-te mais para a direita; aí pões-me em contraluz.
— Não faz mal. Eu gosto de brilhar nas fotografias…
— Parva! Deixa-te de brincadeiras e vai para ali, mais perto da árvore. Vá lá, quero apanhar-te com a figueira velha em segundo plano.
— Queres… E chamas-me um figo?
— Melhor ainda: como-te!
Fotografados. Estamos pelo chão, caídos na teia, eu em pernas de aranha, tu apoiada nos meus joelhos, amiudadas vezes desenhando com um braço a aproximação aos figos no rés-do-chão da folhagem que nos entrecorta o céu. A cisma não tem escalas possíveis — a terra é nossa. Toda nossa. Ergues-te sobre a voz e lanças-te sobre mim. Um abraço telúrico arruma os teus seios contra a minha ideia de casa. Há firmeza nos olhos fechados. Os pássaros rasgam o vento para acompanhar o timbre sibilino do teu cantar orgástico. Não confeccionas ironia agora — és denotativa e literal como uma gota de saliva. É apenas uma tarde que nos acrescenta às outras tardes de penugem eriçada, o sempiterno nervoso miudinho na órbita dos planetas novos quando lhes acontece invadirem uma nova galáxia. Um grama de pó-de-ser que nos verga ante o seu peso astronómico. Não vale a pena dizer nada. A sério que não.
Eu digo.
— Amo-te.
Deténs-te, absorta. Cravada no infinito. Angustio-me infinitamente a pensar se sou eu, o infinito.
— Dizes isso a qualquer gaja que te abra as pernas à sombra de uma figueira, algures no cu do judas.
— É verdade que sim, tens razão.
— Estúpido!
Na minha palma revolve-se a espuma do teu cabelo. Cresce um tumulto de sede dentro do silêncio. Ainda tremo. Acendo-te um cigarro king size com baixo teor de confidências e concentrado de nicotina.
— E eu a ti.



Apeados, impelimos as bicicletas com uma mão, na outra entrecruzam-se os dedos e as possibilidades. A combustão de um segundo pode bastar para que seja tudo dito. Ou silenciado. Ardemos.
Cruzamos a passarela da aldeia, inauguramos o mundo. As velhas observam-nos. As putas das velhas. Perscrutam-nos. Atravessam-nos. Assaltam-nos. O gume da sua invasão radiográfico racha-nos de transparência. Somos uma fractura exposta de pudor e felicidade. Avançamos lentamente, em passo acelerado. Passo por elas sozinho — abstraio-me, esqueço-me de ti e da tua mão culpadamente suada. Finjo ignorar a sua sapiência indiscreta. As putas das velhas. Elas sabem. Eu sei que elas sabem. Eu sei que tu sabes. E finges também. É bem feito serem velhas, para aprenderem a não se meterem onde não são chamadas. É bem feito estarem às portas da morte, que só servem para sugar a vida dos outros. Pobres velhas. Se elas soubessem… Será que sabem? Será que se nota?
— Boa tarde, como está.
(Disfarço a interrogação, para não acordar a resposta nem o estorno da questão.) O campanário sacode o sino energicamente. Apetecia-me rebolar contigo pelo tapete de pétalas e folhas que maquilha o piche do escaparate e cobrir-te com uma procissão de beijos e heresias até ao santuário. Porque as putas das velhas sabem. Vê-se-lhes na cara que sabem. Estiveram aqui para isso, para saber, à espera desde que nos viram sair montados nas bicicletas. Elas sentem, pressentem. Têm uma sinistra acuidade divinatória enredada nos seus lutos subcutâneos. São bruxas perspicazes e perseverantes. Caminha depressa, por favor.
— Ainda falta muito?
— É já ali na próxima à direita. Podes ir retocando a maquilhagem e dando um jeito ao cabelo.
Inquietei-te mais ainda.
— Não está bem o meu cabelo?
As putas das velhas miram o teu cabelo lá do alto da sua imaculada inutilidade provecta. Dizem que está mal, desgrenhado.
— Esquece, está bem assim. Estava a brincar.



Temos pela frente um portão que nos fecha. Momentaneamente? Duvido das minhas próprias certezas. Não houve ainda tempo para o rescaldo. Vamos abrir timidamente o portão e entrar. Não temos pressa. A minha família sabe o teu nome. Eu já conheço de cor o odor exalado pelo percurso dos teus seios na minha boca. Ainda tenho o teu sopro cálido a engarupar-se no meu pescoço. E um comboio a vapor a percorrer a pele. Acidamente. Em surdina. Apresento-te a minha avó. Prova o folar. Estes são os meus tios-avós, aqueles de quem te falei, que estiveram na América quarenta anos e agora voltaram às “origens” (porque ser estranho numa terra estranha é algo em que nos viciamos facilmente). Contei-lhes que nestas férias foste a Nova Iorque e a Filadélfia — assim sempre teremos assunto de passatempo. És um quebra-cabeças. Vamos beijar o Cristo e fazer de conta que pecámos muito. Aleluia, aleluia! Que bom.

29 Outubro, 2006

# 2.3

— Tens espuma no canto dos lábios.
O polegar, discreto, desponta em crescendo da mão e viaja num movimento premeditadamente curvo até à boca. Arrasta suavemente a sua impressão desde a periferia até à aresta de uma expressão teatral de desinteresse. Nada. O polegar recolhe seco à proveniência. A mão torna à mesa, apaziguada. Fitas-me. Não há no teu rosto interrogação; ainda assim, pressinto que esperas de mim uma resposta.
— Do outro lado.
— Hã?
— Limpa do outro lado. É no canto esquerdo.
Aquiesces, exalando um suspiro de enfado. Desta vez o processo inverte-se: é o polegar da mão direita que executa a depuração. Desta vez a moção é determinada, repentina, um gesto com menor elegância do que antes e sem qualquer réstia de volúpia. Estou, nestes esparsos segundos, absorto no labirinto matemático que acolhe a dicotomia entre mão esquerda no canto direito e vice-versa; e de como temos sempre dois lados distintos que, amiúde, aprendemos a aplicar com parcimónia e temperança nos múltiplos cenários em que a vida nos coloca. Pois é: dá-me para os pensamentos mais estúpidos e inúteis nas ocasiões mais inadequadas — que ele há, verdadeiramente, ocasiões adequadas para cultivar pensamentos estúpidos e inúteis, e não tão poucas quanto isso.
— Podias ter dito logo.
— Tens razão, desculpa.
Erro crasso. Primeiro a imprecisão. Agora, dar-te razão e, acto contínuo, desculpar-me pela falha. Expus-me demasiado. Tenho a certeza que neste momento, antes sequer de abrir a boca, adivinhas o que vou dizer-te; consegues desde já estabelecer o motivo pelo qual te convoquei, uma hora antes do previamente marcado, para este café da baixa, onde previsivelmente não levantarás a voz nem farás cenas passíveis de nos exporem aos olhares da turba. Detestas que te encontrem em trajares mundanos, não suportas que te, ou nos, olhem com curiosidade e menos ainda com congeminação bisbilhoteira. Quanto a mim, além de muitos outros temores, vivo apavorado de que possam adivinhar o que pretendo dizer no momento seguinte. É-me insuportável. Quero manter-me imprevisível. Inesperado.
Pressinto que as tuas mãos se esforçam para ocultar o tremor.
— Suponho que a tua resposta é não.
Tudo menos isto. Estive horas a cogitar, a moer e a remoer a estratégia de argumentação destinada a aliviar a minha consciência junto de ti. Há dias que não penso noutra coisa; e de cada vez que pensava imaginava-te lívida, desagregada, talvez chorando ligeiramente, perante o choque da minha revelação estrondosa e apunhalante. Mas não. Trocaste-me as voltas e antecipaste-te, desconcertaste-me. Principiaste-me no ponto em que esperava terminar-te. Vejo-me embaraçado. E gelado, de um gelado liquefeito que me injectassem nas veias. Invade-me uma vontade de negar o teu vaticínio pela simples birra de te contrariar. Mas não posso. Tudo isto é demasiado sério para que nos possamos dar ao luxo da distracção, das cerimónias. Perdemos já tempo precioso a brincar às casinhas. É chegada a hora de crescermos.
— O café aqui é muito bom, não é? Tiram-no com muito creme.
— Há melhores. Está um tanto queimado. Mas não vejo que raio de importância tem isso agora.
Sobreveio-me uma pungente necessidade de te friccionar o ânimo com esta porção de algodão embebido em álcool etílico, antes da injecção letal que trago encoberta no bolso. Para te quebrar o ímpeto. Contudo, uma vez mais és tu quem me desarma. Seja.
— Decidi aceitar o emprego. Segunda-feira começo a trabalhar no jornal em Lisboa. Já falei com eles, está tudo tratado.
Que mania irritante a minha de encetar os assuntos sérios com um posicionamento nos meios-termos… Coragem, Edgar, coragem.
— Portanto, está consumado. Não tenho voto na matéria.
— Na verdade, não. Acho que é o melhor para ambos.
— Achas… achas o que te dá mais jeito. Sempre. Não fazes a mínima ideia do que é melhor para mim. Se calhar, nem do que é melhor para ti.
— É um risco que corro. Mas a decisão está tomada. Não digo que não me tenha custado, mas está tomada.
Minto. Não custou. Foi, aliás, um alívio. Estarmos gastos e fenecidos de vícios rotineiros é o que eu mais dispensava na vida. Tu sabes que é assim; sabes que abomino a trivialidade e a repetência; sabes que o esqueleto em que encarnámos como dueto em construção está ancilosado; sabes que assim já não íamos, jamais, a lado algum. Todavia, acreditas que ainda existimos — detesto, também, quando usas a imagem da brasa adormecida que deve ser avivada, reavivada, e asseveras que somos nós a dita. Essa é uma das maleitas de que padecemos — os lugares-comuns. Afora os cafés onde era costume estarmos de mão dada a ver o Mundo passar, todos os outros sítios se metamorfosearam em banalidade seca e rúptil. Já não nos reconheço em mesteres tão costumeiros.
Apetece-me dizer-te que preciso de atrevimento. Ou coisas maiúsculas como Arrepio, Paixão. E olhar para as ruas sem conseguir vislumbrar o seu término. Mesmo correndo o risco de porventura não haver saída e tendo consciência plena de que esse risco possa resultar em desventura (outra maiúscula: Risco). Mas tu tens um plano. Vais assediar-me com os mirabolantes avatares de uma casa com vista para a foz que tenderá a ser nova ou mutante; vais bombardear-me com o filho milhentas vezes fecundado em ti, mimeticamente inseminado em mim, sobre cuja educação e preceitos de civilidade tantas vezes deambulámos e discutimos acerrimamente ao ponto de nos zangarmos, umas vezes com lágrimas e ranho, outras com os cotovelos a roçar o riso e a loucura do destempo futuro; vais acicatar-me com as cabazadas que me darás no snooker, e esse simulacro particular far-me-á figurar-te debruçada sobre o caixilho de madeira do bilhar, para uma imperiosa tacada com a bola branca puxada com efeito, e o gozo que normalmente me advém ao saborear a cobiça dos outros homens confrontados com o espectáculo entusiasmante do teu traseiro fabuloso, que é meu; vais enlear-me com o nome dos destinos de viagens e com a acme taquicardíaca dos crepúsculos e dos monumentos que trazemos fotografados no passe-partout da musa-de-cabeceira; vais embevecer-me com estórias de amigos dispostos a envelhecer connosco e com os vinhos novos que irão evoluir e, quando velhos, aprenderão a aguardar o seu tempo no rodapé das conversas.
Não é que não queira tudo isso. Talvez queira. Dói-me a memória, contudo. E sinto, agora, que preciso somente de coisas de que não consiga lembrar-me. Tenho para mim que me quero solto, acrónico. E tudo quanto gravite no universo mnésico do passado é uma grilheta infecta e febril. E a minha história está desbotada de analepses.
— Não me respondes?
Enquanto tergiversava tudo isto foste brandindo palavras. Perdoa-me, não te escutei. É a tal coisa: presumo saber o que vais anunciar e pura e simplesmente dispenso-te, subtraio-me a ouvir e a prestar-te atenção. Olho agora para ti, finalmente resignada, apostada no vazio translúcido do vidro que nos emoldura a cidade em atavios tais que, à luz indomável e parnasiana da tarde, apetece pedir que nos embrulhem pastéis de frenesi em caixas de meia dúzia.
— Desculpa, perdi-me em pensamentos. Não queria…
Detive-me. Não devia ter dito isto. Há no ser-se franco o egoísmo de libertar a própria consciência transferindo a sobrecarga do peso para o outro, cingindo-o à omnisciência incontornável da nossa verdade e do nosso motivo; roubando-lhe o direito a ser injusto, individualista na sua interpretação e ponto de vista. Remato:
— Vamos jantar.
— Depois do que me disseste… Ainda vale a pena? Faz algum sentido?
— A mesa está reservada. E continuas a ser especial para mim. Tenho os bilhetes comigo na carteira. Vamos ver a peça. E a vida há-de continuar.
— Beija-me.
— Ainda tens um bocadinho de espuma…